segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Querida madruga

A madrugada traz consigo o doce do pensamento leve, descompromissado e desacompanhado das tendências. Ajuda na descoberta do que somos realmente, quando os pensamentos são tão somente aquilo que são, sem interferências externas advindas de opiniões alheias.

Felizes os que se dão ao luxo de madrugar, mesmo que seja em um ocorrido ocasional do destino. Precisamos de momentos unicamente nossos, e vejo que este espaço especial do tic-tac costumeiro do relógio apresenta uma oportunidade e tanto para analisarmos bem tudo o que está acontecendo.

Os dias passam como sempre passaram. Quando tu percebes que, enquanto a maioria dorme, és um mero samaritano acordado, lhe consideras diferente. Ninguém lhe aponta dedos, tu mesmo notas que és um tanto atípico. Uma ovelha negra, talvez? Depende do modo de interpretação.

Essa tal madrugada é sempre bem-vinda para quebrar o ócio do andar preestabelecido. Abrevio-a e então tenho "madruga", logo lembro do célebre Seu Madruga. Grande recordação. Associemos a personagens uma existência que nada valeria se não fossem os encontros promovidos pelo acaso.

O acaso me encontrou perdido
Estendi-lhe o braço, fui embora
Então ele retornou e me achou
Cara, é só a madrugada lá fora!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Peixe fora d'água

Sai de casa e habita quaisquer ruas
De uma cidade que agora é violenta
Observa a juventude sem propósito
Pensa no que dizer, mas nem tenta

Há feridas que tornam-se tatuagens
E há marcas de batom em seu corpo
Contemplando informações inúteis
Faltando muito para chegar ao topo

Conhece a música, a arte e a poesia
Ouve falar de chatice, tédio e rotina
Sabiamente deixa o relógio trabalhar
Uma hora a conversa fiada termina

Só Deus sabe o que irá lhe encantar
Tem uma moreninha metropolitana
Seu futuro ainda não foi descoberto
Sendo as mãos lidas por uma cigana

Ainda persegue a rota de esperança
Alternativamente o moçoilo acredita
Entre inúmeros indivíduos descrentes
Se ele é peixe fora d'água, que resista.

Há feridas que tornam-se tatuagens
E há marcas de batom em seu corpo




segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Momento singular

Chega o final de ano e, com ele, um clima ecoa subliminarmente vindo do litoral. É época de viver mais à noite que de dia, levar menos a sério as preocupações e refletir sobre a própria existência. Preferido por muitos, penso que o verão seja tão benquisto por remeter à liberdade que o ser humano almeja e obtém com maior dificuldade em outras estações do ano.

Menos rotina, menos roupa, mais chance de aproveitar. Quem era acostumado a usar sapato durante os dias comuns, pode tranquilamente agora colocar o seu chinelo e caminhar de maneira saudável. Sobra tempo para que nos conectemos, enxerguemos a natureza e percebamos que o mais importante dispensa sofisticações.

Paremos com a correria sem destino fixo e vamos relaxar com o sol triunfante ou o frescor advindo da noite de luar. Sonhemos da forma mais pura e saibamos extrair de um momento especial as singularidades próprias do contexto. Para isso, a ideia não deve ser de uma simples passagem, mas de continuidade em uma trilha infindável de evolução e percepção de plenitude.

Pera aí! Não pense que sou passageiro!
Explico que a minha ideia é chegar pra ficar
Escolhendo uma linha contínua, pois saiba
Que o momento presente é, de fato, singular

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Fabulando

 O inverno e a primavera
(Esopo)

O inverno estava ralhando com a primavera e a enchia de reprovações:

- Mal tu apareces, ninguém fica parado; este vai pelos campos e florestas para colher as flores que ama, lírios ou rosas, para admirá-las ou pô-las no cabelo; aquele outro pega um barco, atravessa o mar e, se for possível, vai visitar outros países. Ninguém se preocupa mais com o vento ou a chuva. Eu, ao contrário, pareço um chefe a quem se obedece sem reclamar: a uma ordem minha, os olhares voltam-se do céu para a terra; inspiro medo e horror, e as pessoas se dão por felizes por terem de ficar em casa dias e dias quando assim decido.

A primavera disse:

- Por Zeus! É por isso que os homens gostariam de se livrar de ti, enquanto só o meu nome lhes parece bonito, quando não o mais belo de todos, de modo que se lembram de mim quando desapareço e ficam felizes quando retorno.

"(...) se lembram de mim quando desapareço
e ficam felizes quando retorno."

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Dia a dia

Não dá para crer em liberdade
Estando trancado em uma jaula
Sem sentir o sol, a chuva, nada
Só peça no tabuleiro da cidade

Passam as horas, acaba o dia
O outro recomeça sem mudar
Diante desta cansativa rotina
Poucos têm chance de inovar

A maioria comemora na sexta
'Sobrevivemos! Conseguimos'
Mas a vitória seria no dia a dia
Fazendo o que confere alegria

Ir dormir tarde e acordar cedo
Trabalhar muito, ganhar pouco
Seguir o modelo da sociedade
Que faz do homem mais louco

Esquecendo as suas ambições
Preferências, ideias e emoções
Correndo dentro de um círculo
Estando recluso a um cubículo

Em subliminar, há a alternativa
Que envolve pessoas realizadas
Podendo escolher o seu destino
Com coragem em suas jornadas.

Seguir o modelo da sociedade
Que faz do homem mais louco

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Detalhes do perfume

Gostaria de saber a origem daquele perfume
Que acaba na madrugada e volta na semana
Com o pensamento longe, sigo caminhando
Um tanto distante de todo o pessoal bacana

É que quando viajo sozinho no quarto escuro
Parece que tanta gente não gera a diferença
Que uma pessoa, apenas, pode fazer comigo
Esquecendo o orgulho e qualquer desavença

A multidão grita alguns sons desconhecidos
Está difícil de entender o que querem dizer
Se a minha mente não está no mesmo lugar
E eu termino mais um dia sem sequer saber

No constante aprendizado de novos ideais
Convenhamos que levar a sério é olhar a si
Percebendo o que a emoção diz, a razão ri
E que, ao final, ambas deixam os seus sinais

Se existe alguém, no mundo, que entende
O menor momento é deveras importante
Pois, se olhássemos juntos, repetidamente
Foram detalhes que trouxeram-nos adiante.

Foram detalhes que trouxeram-nos adiante


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O que é melhor?

A letra maiúscula ou o último ponto?
A prosa, a poesia ou será que é o conto?
Uma mesa de escritório ou a beira do mar?
Ser realista ou viver sempre a sonhar?
O disco inteiro da banda favorita ou a música principal?
Se dar mal fazendo o bem ou se dar bem fazendo o mal?
O projétil que se perde no ar ou o tiro certeiro?
O último beijo ou o primeiro?
Um pote de sorvete com sorvete ou com feijão?
Ganhar na loteria ou conquistar um coração?

As nossas escolhas definem o que somos, bem como o que deixamos de escolher.

Boa sorte com as suas preferências!

"E esse caminho
Que eu mesmo escolhi
É tão fácil seguir
Por não ter pra onde ir."

(Raul Seixas)