segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Jardim sem flores

As mulheres perderam a coragem de sair na rua, e a rua, consequentemente, perdeu beleza. Elas temem olhares maldosos, comentários vulgares e investidas violentas que tornaram-se um hábito vergonhoso de nossa sociedade, que oprime e jura não oprimir. O homem vem subtraindo gradualmente a sua humanidade e será o responsável pela extinção dela.

A cegueira que mais me preocupa é a de quem não quer enxergar. A causa feminina é nobre e espero que não seja preciso que um troglodita qualquer passe pela situação de uma irmã ou filha sua, por exemplo, sendo abusada, para se dar conta de que a mulher merece respeito. Não se trata só de uma disputa, mas de uma súplica por igualdade.

Os assediadores são incapazes de se colocar no lugar das assediadas e acreditam que agir desta forma confere a eles uma superioridade, a prevalência do gênero mais forte sobre o mais fraco. Na verdade, eles são uma aberração mascarada de sexo masculino, uma anomalia de uma organização devastada, um aborto da natureza.

Não é necessário ser muito inteligente para perceber que nenhuma mulher que se valoriza o mínimo possível pretende ser abordada de uma forma desrespeitosa por um desconhecido qualquer. Mesmo assim, o desqualificado chega nela de uma forma desprezível, fazendo com que ela sinta nojo de sua atitude. Será que quem age assim gosta mesmo de mulher?


As mulheres temem. A espécie humana assusta.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Campo de batalha

Nova votação na Câmara dos Deputados
O povo assiste a tudo em regime fechado
Reviravolta entre reprovação e aprovação
Da noite pro dia, o que era sim vira não

Nenhuma bandeira nos representa de fato
De todas essas siglas nós estamos fartos
Valemos bem mais do que alguns reais
Há propaganda política em todos canais

Não se renda a toda essa hipocrisia
Pense por si mesmo, não desista
Não se venda por qualquer fantasia
Seja você mesmo, seja realista

Que país sobrará às próximas gerações?
À medida que são tantas as corrupções
Parece que virou normal ser desonesto
Na hora de decidir, escolha o lado certo.


De todas essas siglas nós estamos fartos

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Verdadeiro ou falso

Desconfie de quem só lhe procura na festa, no auge, no momento sublime. Não aposte todas as tuas fichas em quem esteve contigo na bonança e apenas nela. Andando de limousine, todo mundo é amigo de todo mundo, formam-se pares e criam-se histórias ali mesmo, na calada de uma noite que só tem a celebrar um suposto enriquecimento pessoal de cada membro envolvido.

Abra os teus olhos para quem está contigo na pior, na inconveniência, no desgraçar das esperanças. Aquela companhia que sabia que não obteria muito de ti, confirmou que não teve nada, mas mesmo assim permaneceu ali... essa parceria provavelmente estará contigo sempre. Quem conhece o teu lado ruim e o aceita tem tudo para compartilhar contigo desenlaces maravilhosos.

Joguemos fora as expectativas irrealizáveis de felicidade eterna e de vida perfeita: não existem! Quanto mais gente estiver conosco na pior, melhor. Normalmente, são pouquíssimos os que ficam e, sendo sincero, pode acontecer que ninguém permaneça em momentos assim. Se um desventurado qualquer ficar, olhe para ele e diga: "cara, obrigado por estar aqui". Um agradecimento verdadeiro faz falta!

Tu tá mal? (In)felizmente, eu tô contigo!

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Especial - Dia das Crianças

Eu queria ainda ser criança

Quando eu era criança
Sabia que poderia mudar
O humor, o dia, o mundo
Sem medo de me expressar

Assistia desenho pós-aula
Jogava bola todas as tardes
Mal sabia o que era tecnologia
Precisava saber? Não queria!

A felicidade era constante
Amigos eram, de fato, amigos
Gostava até de ir à escola
Bons tempos aqueles antigos

Havia festas de aniversário
Com pessoas alegres em casa
Abrir presentes era mágico
Para voar, só faltavam asas

Conhecia a violência pela TV
Podia caminhar em paz na rua
Vislumbrava um futuro farto
A realidade é nua e crua

Eu queria ainda ser criança
Mas criança não posso mais ser
Um sonhador, por ora, posso
Que aquilo que fui ainda serei.


Parabéns às crianças novas e velhas!

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

De domingo à noite

Por vezes, nós ficamos desesperançosos
Se o clima está pesado e nos contamina
Quando a maldade sobrepõe fatos bons
Estarmos intranquilos se torna a rotina

Os planos para o futuro amenizam a dor
De uma realidade que veio para devastar
Somos, agora, participantes de um jogo
Sem vencedores ou hora para terminar

Olhar para trás é uma escolha arriscada
Quando se percebem os mesmos erros
Outras decepções, quedas imprevisíveis
Tristeza constante, felicidade de menos

Derramar umas lágrimas parece certo
Para quem ainda consegue sentir algo
Habituado com indiferença e desilusão
Consciente de que sofreu o seu estrago

Não queria estar arruinado no domingo
Mas constatei que acabou mais um dia
Tudo se passou e o ano quase terminou
Como se fosse uma música sem melodia.


Somos, agora, participantes de um jogo
Sem vencedores ou hora para terminar



segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Pequenas cidades, grandes negócios

Quando eu era criança, tinha uma admiração pelas grandes cidades, constituídas por arranha-céus, gente de montão e pontos turísticos de destaque mundial. Queria até mesmo saber o nome das capitais do maior número possível de países.

Crescido e com uma visão mais ampla da realidade que me cerca, percebo que as grandes cidades normalmente vêm acompanhadas também de grandes problemas, como a falta de segurança, a desigualdade social e os níveis acentuados de poluição.

Amadureci e mudei de opinião: agora, prefiro as cidades pequenas. Muitas vezes distantes dos grandes centros, elas apresentam as suas peculiaridades e, embora também passem por maus bocados, normalmente estes estão bem mais sob controle.

Nos pontos quase imperceptíveis do mapa, residem pessoas com histórias culturalmente riquíssimas, belezas naturais que nos desacostumamos a ver e um sentimento de fraternidade que rege as relações humanas, estabelecidas com base na confiança.

Na contramão do ciclo migratório natural do ser humano, que culmina na saída do seu cantinho para um complexo maior, quero largar o meu cantinho para fixar-me em outro ainda menor e menos comentado, porém mais acolhedor e instigante.

Cascata em Cotiporã/RS (cerca de 4 mil habitantes).

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Desfilando na chuva

Certa vez, um aventureiro saiu a caminhar
Estava chovendo e ele permitiu se molhar
Sem apressar o passo, optou pela sensação
Enquanto todos corriam, ele era a exceção

Sabiamente, refletiu acerca da fuga alheia
Era como se cada um quisesse a sua aldeia
Muito calor no verão, muito frio no inverno
Sempre há o que reclamar, um ciclo eterno

Imaginou o que eles imaginariam ao vê-lo
Sozinho, encharcado, em total desmazelo
Sequer possuía um guarda-chuva: coitado!
Já que é tão comum se prevenir um bocado

A sua intenção era lógica: sentir a chuva
Ao mesmo tempo que tinha gente de luva
Que pecado! Que blasfêmia! Que heresia!
Não ser mais um desesperado em demasia

Ele poderia ter ficado gripado e não ficou
Ter optado por chegar antes, mas desfilou
Parecia insana a curtição naquele cenário
Mas a felicidade não tem prévio horário.


Correndo ou não, a chuva molha.